Meu perfil
BRASIL, Sudeste, BELO HORIZONTE, CARLOS PRATES, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Livros, Música



Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




LEOliteratura
 


Precisamos Defender a Literatura

Precisamos defender a Literatura

dos interesses da Direita, da Esquerda, do Centro

e principalmente dos Acadêmicos

 

 

O que seja Literatura, e como a definimos nós que escrevemos, é uma questão sobre a qual nos debruçamos ao longo de quase uma década, quando a Escrita assume a importância de uma diálogo nem sempre viável na vida real (digo, social). Então Escrever surge como a melhor forma de 'dialogar', de se expressar. Ainda mais visto a infinitude de palavras que jogamos fora, inutilmente, em conversações diárias.

 

A Escrita enquanto 'fixação' da Fala e expressão do Autor, não importando as 'fronteiras' entre um e outro (mero formalismo acadêmico), permite a sobrevivência de Enunciações até alcançar as novas gerações, onde os textos estão sujeitos a novas interpretações, adaptações, deturpações e instrumentalizações. Sendo uma permanente fonte de consulta (e de comentários) a Literatura vê-se atingida por todos os lados por apropriações a servirem aos interesses de grupos políticos e econômicos, que visam a utilização do conteúdo humano e emocional da Escrita.

 

Seria uma utilização 'extra-artística' no sentido de além-da-Arte, fora da Arte, estando esta subordinada a um interesse não-literário, servindo como transmissor de ideias e não exatamente estética. Enquanto a proclamação de “Arte pela Arte” defende o discurso estético em si-mesmo, sem referenciais, sem ligações políticas e ideológicas. Mas o “Arte pela Arte” já é (e não sejamos ingênuos!) uma posição política e ideológica diante da Escrita.

 

Assim, temos duas polaridades. O pólo do texto pelo texto, e o pólo do texto a favor de algo fora do texto. A Literatura dizendo sobre si-mesma ou pretendendo se manifestar (e agir) fora do âmbito literário. E cada grupo social, econômico, ideológico vem se esforçando por direcionar (ou dizer que a Literatura assim se direciona...) para um dos pólos. Obscurecendo (ou querendo ignorar) o fato de que a Escrita é diálogo (do Autor consigo mesmo, do Autor para o Leitor, dos Leitores uns com os outros...) intermediando os dois (ou vários...) pólos.

 

Precisamos, portanto, defender a Literatura dos interesses da Direita, que pretende limitar, moralizar, censurar os âmbitos literários, no propósito de reproduzir o status quo, a conservar a desigualdade, a garantir os privilégios para as Elites. Defender dos interesses da Esquerda, que visa instrumentalizar, tornar a Escrita um veículo panfletário de luta, muitas vezes destruindo a estética. Defender dos interesses do Centro, que deseja anestesiar as obras literárias, congelar qualquer debate, postergar qualquer crítica.

 

E principalmente defender a Literatura dos interesses dos Acadêmicos, que se esforçam em normatizar, rotular, compartimentar, ensimesmar a Escrita, ao fazer a Literatura voltar-se sobre si-mesma, ser 'metalinguagem', conjunto de paradigmas e estruturas, ou então mera ficção sem referenciais. Onde Enredo são ficções auto-referenciais, onde as personagens são 'funções textuais' (assim como para a Sociologia somos “atores sociais” !!)

 

Podemos ouvir, em plena aula de Teoria da Literatura, na FALE-UFMG, a barbaridade, dita por acadêmicos, nossos professores, que a Literatura nada diz além de si-mesma, que tem uma função estética apenas – ou seja, exprime toda aquela visão formalista, estruturalista, anti-historicista, que é contra-ponto à visão marxista (do materialismo-dialético, onde a infra-estrutura material determina a super-estrutura cultural-simbólica-discursiva) onde a Literatura é mero produto de formas sociais, numa dada época histórica, e assim todo texto é limitado, datado e de teor coletivo (onde ficaria o Autor e o Estilo? Também o Autor é determinado pelo meio social...)

 

Neste ponto o marxismo está equivocado (principalmente autores como Lukács e Gramsci), assim como o formalismo (Bakhtin e Todorov) e o estruturalismo (principalmente Derrida e Kristeva), com poucas exceções, talvez Foucault e Deleuze, que falam de Texto-Contexto, Obra-Estilo, Discurso-História. Assim, um absurdo gera em contra-ponto um outro absurdo (assim como a humanidade nunca sabe resolver um problema sem criar outros...) Cada um quer defender um ponto-de-vista, e esquece que não há uma perspectiva ideal para se ver o mundo. Tudo são ângulos, parciais e subjetivos, de observação.

 

E é justamente esse pluralismo (nem sempre 'politicamente correto') que é preciso preservar na Literatura. Caso contrário, cada pólo vai querer censurar o outro: e para onde vai a 'liberdade de expressão'? (Com um porém, para os 'liberais', liberdade não mais é que liberdade para lucrar – e não repensam as consequências desse 'livre negócio' que gera concentração e pobreza...) A Literatura não serve a apenas um dos 'pólos' mas a todos. A beleza de obras como “Ulisses”(James Joyce) ou “Crônica da Casa Assassinada”(Lúcio Cardoso) está basicamente no uso plural do discurso, a multiplicidade de visões, a partir do olhar de várias personagens.

 

 

Na Literatura Brasileira, para sermos específicos (e bons nacionalistas) temos ótimos autores que falam da Literatura na Literatura, mas igualmente ótimos escritores nos quais a Literatura se refere e discute o mundo extra-literário, com ou sem 'engajamento', mas em busca de diálogo, denúncia e testemunho. (Melhor redação: diálogo plural, denúncia social e testemunho existencial) A necessidade de 'espelhar' o mundo é sempre 'filtrada' pela necessidade de expressão. Há um Autor, há um Narrador, há um Estilo. (Dizemos um Estilo, mas o Estilo pode incluir uma multiplicidade de características, na mesma obra, e de obra para obra...)

 

Temos um Machado de Assis que preenche suas narrativas (de pouco conteúdo) com longas digressões, comentários metafísicos, nuances irônicas, como encontramos em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas temos igualmente um Graciliano Ramos que fala do mundo extra-literário, absorvendo-o ao literário (como são clássicos os exemplos de “São Bernardo”, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”. Temos autores altamente estéticos, e não podemos deixar de destacar Guimarães Rosa, em “Sagarana” e “Grande Sertão:Veredas”, a mostrarem todo um interesse sobre o 'mundo extra-literário', onde as personagens não são meras 'funções textuais', mas representações de gente de carne e osso, que sofre sob a opressão e geme de angústia.

 

Temos autores altamente estéticos e psicológicos (lembramos Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado ) onde o texto tem um propósito, não sendo mera ficção de 'exercício textual', ou 'metalinguagem', mas uma forma de expressar um desconforto e comunicar este desassossego aos leitores dedicados (pois a Leitura exige dedicação, não apenas disposição para lazer e entretenimento), bem diferente de autores (ditos pós-modernos) que nada dizem além do texto, em um palavrório auto-referente, vazio de discurso, sem algo de importante a dizer, nada além de encher páginas e mais páginas de papel, com caracteres tipográficos inúteis.

 

A Literatura enquanto auto-referente é uma porca mastigando o próprio rabo, rodando em círculos, matando os leitores de tédio (que na ausência de um real Enredo ficcional, vão preferir ler os best-sellers do mês, que entregam mastigadas as fábulas e fantasias da temporada...) Dizer do dia-a-dia, dizer sobre o que é viver em um mundo desigual, não é desviar-se da Literatura, mas mostrar que a Escrita pode testemunhar o mundo ao redor, possibilitando ao Autor desabafar sobre seus sonhos e pesadelos.

 

Set/09

 

Leonardo de Magalhaens

 

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 14h13
[] [envie esta mensagem
] []





sobre O Amanuense Belmiro (p2)

sobre O Amanuense Belmiro (1937)

romance de Cyro dos Anjos (MG, 1906-RJ, 1994)

 

O Eu no Olhar dos Outros

 

Parte 2

 

Belmiro quer escrever 'memórias' mas acaba por escrever

'romance' (p. 95), onde as lembranças são transmutadas

em 'ficções', e os Outros são, de fato, projeções do Eu, e que

fogem ao controle: “Estive refletindo, esta tarde, em que, no

romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem.

A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si,

procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito.” e “Não se trata,

aqui, de romance. É um livro sentimental, de memórias. Tal

circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade,

dentro do nosso espírito as recordações se transformam em

romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno,

são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a

desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos,

tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance

trágico, romance cômico, romance disparatado, conforme cada

um de nós, monstros imaginativos, é trágico, cômico ou absurdo.”

 

Em contraste com o romance (que é idealização, ficção), o diário

não é romance, é um painel da vida complicada. As notas de

pensamentos soltos e existencialistas, de um 'burocrata lírico' é

que acabam por salvar Belmiro, quando da eclosão da Intentona

Comunista, em fins de 1935. O delegado ao ler as notas (o romance

em-si) só encontra um 'cidadão inofensivo'. E realmente, Belmiro

mesmo se compara a Don Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”,

na tentativa de “dar sentido a uma vida sem sentido”, a perseguir

uma Donzela Arabela, além de moinhos de vento.

 

Qual a solução? No terceiro parágrafo da obra está a fala de Silviano:

A solução é a conduta católica”, ou seja, não podendo ter tudo,

renuncia-se a tudo. Refugia-se num mosteiro. É a mesma solução

encontrada pelo narrador-protagonista (que também escreve um

'diário') de “O Braço Direito”, de Otto Lara Resende, e pelo Eduardo

de “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. “A conduta católica,

repetiu. Isto é, fugir da vida no que ela tem de excitante.” Caso

contrário, viver a vida é fazer 'concessão à Besta'. (Na metáfora,

entenda-se 'aos prazeres da carne')

 

Todo um dilema existencial que torna-se ironia e sarcasmo em

Hilda Furacão”, romance do também mineiro Roberto Drummond,

onde o padreco vê-se seduzido pela 'figura pecaminosa' da jovem

prostituta, que 'devora' os homens na zona boêmia.

 

Ao contrário de muitos outros, convertidos ou des-convertidos, para

Cyro dos Anjos, o Belmiro, a literatura é uma 'tábua de salvação',

Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico

(p. 198), o que está no contra-ponto de um Carlos Drummond de

Andrade, a escrever; “A literatura estragou tuas melhores horas de

amor”, onde a Escrita surge como um obstáculo a realização pessoal,

tolhendo energias vitais do Autor, mera sombra de um Texto.

 

 

É este o fenômeno do observar-se: uma segmentação do Eu: o eu-

de-agora, na plateia, vê o eu-de-ontem lá no palco. A Escrita surge

como a descrição de si-mesmo, em comparação (e atrito e conflito)

com os Outros. Estes incentivam (e desafiam) a um olhar no espelho

(do tipo: “serei o que eles pensam que eu sou”?)

 

Já não encontro, no ato de escrever, a satisfação de outros tempos.

Pouco há, também, que escrever. Continuar a acompanhar a vida

dos outros? Isso seria interminável. A vida dos amigos apenas se

me revelou quando incidiu na minha. Jamais entrei nos seus domínios

íntimo, e se mergulhei a fundo em Silviano, foi porque nele encontrei

possíveis itinerários para as minhas incertezas. Só conhecemos,

aliás, a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o

mais é conjetura ou romance. Não tenciono escrever romance.”

(pp. 209/210)

 

Nem a vida, nem a Escrita parece ser favoráveis ao desiludido Belmiro,

sem amigos sem a donzela idealizada, “Já não é donzela, nem Arabela.”

(p. 226) Sua razão de existência (será a construção do Eu? A

preocupação com os Outros? A conquista de uma companheira? Uma

carreira de ascensão social?) é sempre problematizada e deixada em

suspenso (em 'sursis' existencial), uma vez que Belmiro não aceita as

rotulações e definições externas, os meandros do circo social que ele

ironiza com amargura. Sem os amigos, preocupados com seus êxitos

e fracassos pessoais, sobra a companhia do humilde Carolino, serviçal

na repartição. “Que faremos, Carolino amigo?”

 

O narrador Belmiro (ou o autor Cyro dos Anjos) não resolve

plenamente nenhuma das questões levantadas (afinal, responder

seria decidir-se por um dos lados, e perder-se-ía o tom 'dialogístico')

e deixa o leitor dentro do redemoinho de perspectivas, nenhuma

delas totalizando, nenhuma delas servindo de 'guia'. Resta apenas

o homem que hesita, o Hamlet dentro de cada pensador.

 

 

nov/09

 

 

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 09h53
[] [envie esta mensagem
] []





Continuação da p1 - Os Outros

sobre O Amanuense Belmiro (de Cyro dos Anjos)

 

 

Os Outros

 

As personas, as personagens, os Outros, são igualmente

importantes para situarem (e criarem) o Eu por contraste

(Eu que não sou o Outro), pois Belmiro sabe que é indeciso e

sem convicções, apenas quando se compara com o metafísico

Silviano e com o revolucionário Redelvim. Aliás, são as opções

políticas (lembramos que os anos 20 e 30 foram de radicalização

política-ideológica que levou a eclosão da Segunda Grande

Guerra, 1939-1945), “Passaram ao terreno da política. Desde

muito, as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo

que ela não tardará a dissolver-se, pois há forças de repulsão,

mais que afinidades, entre estes inquietos companheiros.

Enquanto o Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo,

Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e o Florêncio

ficamos calados, à margem.” (p.53)

 

Metafísico, nietzschiano, obcecado com o 'mito faústico', mito-

maníaco, Silviano é um desafio para Belmiro (assim como Sancho

Pança tenta entender Don Quixote, Watson tenta entender Sherlock,

assim como Emilio tenta compreender Stefano, em Senilidade,

de I. Svevo, ou Serenus se intriga com Adrien, em Doktor Faustus,

de T. Mann ), uma incógnita que o protagonista nunca soluciona.

Assim o olhar de Belmiro desce aos demais, mais 'simples', como

é o caso de Glicério, o arrivista, sem a erudição de Silviano ou o

fervor de Redelvim, mas preocupado em 'frequentar as rodas

sociais', e acaba abandonando a literatura em prol de uma carreira

burguesa.

 

Assim, a identidade de Belmiro é dada pelos outros: para Redelvim,

Belmiro é céptico, pequeno burguês; para Silviano é um

'sentimentalóide plebeu'. Mas todos se enganam, pois Belmiro é

mais um 'sem-rumos', igual a um Don Quixote, um João Ternura

(do romance homônimo de Aníbal Machado), não um agente

de uma ou outra ideologia. Como é caso dos amigos, sempre

buscando um 'front' onde se situar. Até a Literatura tem uma

face ideológica, como pode se ver na posição dos poetas, a ser

revista na República Socialista, por Redelvim: “Os poetas (são)

'traficantes de tóxicos', sustentados pelo capitalismo para

entorpecer o espírito de rebeldia das massas...” (p. 89)

 

O que Belmiro não aceita é um mundo fechado em 'definições',

como desejam as ideologias (p.ex. 'quem não é de esquerda é de

direita', e vice-versa), “Por que hão de classificar os homens em

categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é pretender

prendê-los a um sistema rígido. Socialismo, individualismo, isso

aquilo. // As ideias de um homem podem não comportar-se dentro

dessas divisões arbitrárias. (...) O que é injusto é quererem

extorquir de nós uma definição, quando nós a procuramos,

em vão, sem a encontrarmos.” (p. 112)

 

 

continua...

 

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h02
[] [envie esta mensagem
] []





o Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos (p1)

sobre O Amanuense Belmiro (1937)

romance de Cyro dos Anjos (MG, 1906-RJ, 1994)

 

O Eu no Olhar dos Outros

 

Parte 1

 

A narrativa enquanto testemunho, enquanto fala de si-mesmo,

pode ser aquela do confessional, do drama íntimo, ou aquela do

drama externo que reflete (ou nele é projetado) uma angústia

interna. Em ambos o Narrador procura descrever-se, seja nas

próprias palavras (e conceitos), seja na s perspectivas dos outros

(os opositores, coadjuvantes, etc)

 

As formas de 'diário' ou 'memórias' são as mais comuns, quando

há um tom confessional, sendo o primeiro, mais 'presentificado'

(usa mais o tempo presente), enquanto o segundo usa mais

construções no pretérito (um passado relembrado/recuperado),

variando assim a distância entre um eu-de-hoje e eu-de-ontem.

 

Pode-se narrar sobre si-mesmo, falando de si-mesmo, mas

igualmente ao narrar a vida dos outros. A voz narrativa sendo

memoralista, numa 'paródia' de 'diários'. Assim é o romance

O Amanuense Belmiro”, do mineiro Cyro dos Anjos, que mistura

diário e memórias, ao retratar a vida na jovem Belo Horizonte

dos anos 20 e 30, ao mesmo tempo que relembra (e compara)

com a vida rural (a representar os belorizontinos de origem

provinciana) O que mostra uma certa influência de Machado

de Assis, de “Memorial de Aires”, ao situar-se entre dois ícones

da 'memoralística': Marcel Proust e Pedro Nava.

 

Assim como percebido nas obras de Proust e Nava, há toda

uma 'miscelânea' de discursos literários e (quase) ficcionais,

sendo um quase-romance que é uma quase-diário, que é

quase-memórias... Toda aquela sensação (e angústia) de fuga

do tempo, toda uma vontade de agarrar a existência nas foto-

narrativas da memória, do re-contar para re-vivenciar. O eu-

de-hoje desesperado para re-encontrar com o eu-de-ontem,

ou resgatar uma identidade que se perde dia a dia. Há um

narrador ('Belmiro sofisticado') que escreve e confessa sobre

um protagonista (ele-mesmo-de-outrora) ('Belmiro patético')

que viveu, sentiu, fantasiou num tempo já passado – e perdido.

 

Outra obra na tessitura de referências (e lembranças) é “A

Náusea”, diário existencialista publicado por Jean-Paul Sartre,

e assinado por Antoine Roquetin, principalmente no trecho abaixo,

onde Belmiro desabafa lamentações:

 

Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer

neste mundo? Até agora nada realizei. E, para diante, são

menores as possibilidades de qualquer realização. Serei,

mesmo, apenas o tal arbusto da chapada?”(p. 220), numa

referência ao 'caniço pensante' de Pascal? (“O homem não passa

de um caniço, o mais fraco d natureza, mas é um caniço pensante”,

L'homme n'est qu'un roseau, le plus faible de la nature, mais

c'est un roseau pensant. Pensées /Pensamentos)

 

Retrata a fragilidade física e mental do homem, quando o saber

traz infelicidade. De repente, é melhor ser mesmo ignorante e

'curtir a vida': “ignorância é meia felicidade” (p. 222)

 

Considerando-se o período da narrativa – do natal de 1934,

passando pelo carnaval de 1935, a intentona comunista, até o

início de 1936, num momento de transição – a capital sai da

província e se instalavanuma das primeiras cidades planejadas

do Brasil, e o êxodo ruralcuidava em encher a cidade planificada

para um 'número ideal'de habitantes. Há todo um saudosismo

do tempo do campo (em Vila Caraíba) : evidenciando o ser urbano

versus o ser rústico, rural, campestre. O urbano poluído de

pensares em constraste com o rural cheio de energias.

 

Os Outros

 

As personas, as personagens, os Outros, são igualmente

importantes para situarem (e criarem) o Eu por contraste

(Eu que não sou o Outro), pois Belmiro sabe que é indeciso e

sem convicções, apenas quando se compara com o metafísico

Silviano e com o revolucionário Redelvim. Aliás, são as opções

políticas (lembramos que os anos 20 e 30 foram de radicalização

política-ideológica que levou a eclosão da Segunda Grande

Guerra, 1939-1945), “Passaram ao terreno da política. Desde

muito, as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo

que ela não tardará a dissolver-se, pois há forças de repulsão,

mais que afinidades, entre estes inquietos companheiros.

Enquanto o Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo,

Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e o Florêncio

ficamos calados, à margem.” (p.53)

 

Metafísico, nietzschiano, obcecado com o 'mito faústico', mito-

maníaco, Silviano é um desafio para Belmiro (assim como Sancho

Pança tenta entender Don Quixote, Watson tenta entender Sherlock,

assim como Emilio tenta compreender Stefano, em Senilidade,

de I. Svevo, ou Serenus se intriga com Adrien, em Doktor Faustus,

de T. Mann ), uma incógnita que o protagonista nunca soluciona.

Assim o olhar de Belmiro desce aos demais, mais 'simples', como

é o caso de Glicério, o arrivista, sem a erudição de Silviano ou o

fervor de Redelvim, mas preocupado em 'frequentar as rodas

sociais', e acaba abandonando a literatura em prol de uma carreira

burguesa.

 

continua...

Leonardo de Magalhens



Escrito por leonardo de magalhaens às 09h56
[] [envie esta mensagem
] []





sobre JOÃO TERNURA - romance de A. Machado (p3)

 

sobre “João Ternura” (1965)

romance de Aníbal Machado (1894-1964)

 

 

A apoteose trágica do Homem Cordial

 

 

 

Parte 3

 

A parte VI – a fase claramente modernista – é a apoteose do romance de Aníbal Machado , quando o carnaval no Rio de Janeiro faz cair as 'máscaras' da vida cotidiana e os médicos se tornam monstros, e os monstros usam fantasias de médicos. “Os gestos são livres e quase não há roupa!”e “Abaixo a lóooogica!”, os motes para o longo desfile de bizarrices, em nome de alguma crença ou ideologia, em busca de fiéis e fanáticos.

 

Há toda uma paródia aqui: os discursos ironizam os academicismos, os arcaismos, os solecismos, os barbarismos. Ironiza os manifestos comunista, modernistas, futuristas, dadaístas, o que seja! Seja no tópico “Campo X Cidade”: “-Senhores, mais vacas e menos chaminés! Chega de arranha-céus! Chega de geometrias! Chega de asfixias!” (p. 226)

 

Em época de Manifestos, a ironia é de todo válida! Por exemplo, o “Manifesto dos Não-Nascidos” (p. 2333), “É verdade que não invejamos a vida que levais, tão posta à que sonhávamos. Mas bem que queríamos viver... oh, se queríamos!...” ou então, “o texto de um telegrama do futuro”: “Estamos fazendo força para te alcançar stop demora motivo últimas resistências antiga estrutura social bem como safadeza má-fé demagogia stop...”

 

Manifestos e manifestos: não importa o 'teor': os manifestantes são prontamente perseguidos pelos 'agentes da Ordem Política e Social'. A Ordem precisa ser mantida! Então, os absurdos: o orador que discursa contra a “falta de silêncio” - enquanto ele mesmo está a quebrar o silêncio!

 

Assim, o carnaval deixa trans-bordar tudo o que foi reprimido ao longo do ano normativo, normalpata, burocratizado. A vida que não pode ser vivida é re-criada em três dias de liberdade – ou melhor, 'libertinagem'. “A suspensão provisória das proibições leva o povo a praticar tudo o que secretamente deseja fazer durante o ano;” (p. 245)

 

A lógica da Repressão cria um povo dividido entre corpo (instinto) e civilização (ordem), que ora vai a um extremo (libertinagem) a outro (ditadura). Assim diz Josias, o estudante reformista, “nós somos uns neuróticos, incapazes de encontrar os caminhos que levam à alegria de viver.” (p. 245) Neuróticos? Sim, todos. Personagens, povo, os leitores.

 

As personagens são neuróticas por expressarem 'contigências', ao serem construídas por circunstâncias (“eu sou eu e minhas circunstâncias”, disse Ortega y Gasset), na representação de personalidades compartimentadas, incapazes de real diálogo. (Não chegam a ser 'alegóricas' ou 'caricaturais' como aquelas de Machado de Assis ou Lima Barreto)

 

Se destacam Arouca, o subversivo, um socialista sério e taciturno, tentando explicar as razões de o povo aceitar a opressão; Silepse, o ser místico, a reclamar a 'volta a Deus' (e vai ficando agressivo, fanático, ao bradar aos demais: “Destruíram Deus?!... Bravos!”, como a dizer: 'vocês mataram Deus e então? O que fazer?'); Matias, o mais realista, 'pé no chão', a dizer que Ternura vive fora da realidade; Manuel, o prático, aquele que paga suas contas e respeita as regras, possui uma gráfica, tem clientes, um nome a zelar, assim não teoriza, vive em conformidade.

 

Claramente, Ternura é o mais 'torturado', no sentido que encontramos em Dostoiévski (o ser que vivem em 'auto-tortura'). Até a quase-morte do protagonista é irônica e trágica, com uma visão do Inferno a lembrar Dante, ou Lautréamont, ou J. Joyce, ou U. Eco, um Inferno cheio de zombadores, julgando sem-piedade, ao lado de um deus que ri! Deus vê a miséria humana e ri! (destaque para as páginas 268 a 276) O pobre 'homem cordial' morre e nem assim tem 'cordialidade' – vai para o outro mundo e é vaiado na eternidade!

 

O romance de Aníbal Machado vem mostrar a impossibilidade de ser 'cordial' solitariamente na sociedade dos 'homens cordiais', onde aquele cheio de boa-vontade é logo explorado e humilhado pelos demais. Ser 'bom' – ao tentar apagar o incêndio com uma gota d'água – é arriscar-se a ser chamuscado, apedrejado, crucificado – seja por ação dos 'cruéis' ou dos 'indiferentes'. O que dói no romance é justamente essa descrença na 'boa-vontade' do coletivo. E que Ternura consiga despertar apenas desprezo ou compaixão. O que se equivale: acabamos por desprezar aqueles dignos de compaixão.

 

ago/set/09

 

 

por Leonardo de Magalhaens

 

 

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 14h59
[] [envie esta mensagem
] []





sobre JOÃO TERNURA - romance de A. Machado (p2)

 

sobre “João Ternura” (1965)

romance de Aníbal Machado (1894-1964)

 

 

A apoteose trágica do Homem Cordial

 

 

Parte 2

 

O 'homem cordial' não quer lutas, não quer lutar. Nem sabe porque está lutando! “Ternura disparou os primeiros tiros. Sem direção certa, só por disparar. Muito pesada a arma que lhe deram.” (pp. 123/24) Animados por uma 'excitação patriótica' os soldados trocam tiros, se matam, vivem um acontecimento (que depois será 'histórico'), “Com que delícia o mundo gratifica os seus heróis!” (p. 129) E quando a 'poeira abaixa', “A multidão festejava a vitória. Os que não se bateram a comemoravam com violência maior.” (p. 130) Mas quem lutou ainda tem dúvidas : “- Ó sergipano, pra que lado mesmo que nós estávamos combatendo?” (p. 130)

 

Se os soldados não sabem – pobres ignaros, os nossos heróis! - as novas autoridades sabem muito bem! “Às duas da madrugada, sob a chuvinha miúda, acabava de nascer a República Nova. Seus numerosos padrinhos foram aparecendo e se apresentando.” (p. 131) Assim é a nossa (nossa?) Revolução de 1930, uma revolução quase-burguesa, algo trabalhista, feita de cima-para-baixo, “Façamos a revolução antes que o povo a faça”, teria dito o Presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos.

 

Mas a crueldade da cidade vai 'enquadrando' o singelo Ternura. “Ternura fingia interessar-se pela conversa dos homens. Espantava-se do calor com que se interessavam por coisas insignificantes. Invejava-lhes a segurança de viver, a alegria quase imbecil. E, sem presença, apagava-se.” (p. 136) Enquanto isso, mais cartas da mãe: uma voz que vem do mundo antigo... Um 'canto de sereia' para que Ternura retorne ao lar... (Quem se lembra da pequena Dorothy, em “O Mágico de OZ”, de L. F. Baum? Aquela que dizia, sempre saudosista, “Não há lugar igual a nossa casa”(there's no place like home) Saudosita, sim. Cada vez mais perdido: quando mais se adapta ao meio urbano, mais Ternura perde o Eu singelo do menino provinciano. “As coisas perdiam a consistência, fugiam. Ninguém lhe dava atenção, ninguém dava atenção a ninguém. Sentia-se à margem, como nos primeiros tempos depois da chegada.”(p.140)

 

Na cidade que se assemelha a um labirinto, encontramos cenas dignas de um Kafka! Surreais e alegóricas, tal aquela em que Ternura vai ao banco na pretensão de trocar um cheque. O que ele encontra? Um mundo normatizado, burocrático, asséptico, artificial, todo um espaço ao qual o cidadão (alienado!) não tem qualquer acesso. Qualquer semelhança com “O Processo” e “O Castelo” é mera coincidência?)

 

As pressões se acumulam de todos os lados. Os amigos, são outro exemplo. Tentam exercer uma influência sobre o pobre Ternura, cada um com suas perspectivas e manias. E Ternura sempre a reagir: “-Que é que vocês estão pensando? Que não sou um ser humano, mas um autômato, uma coisa?” (p. 168) Até porque a vida automática da cidade vem sempre cobrar seu preço! O tempo é dinheiro ('time is money!') e tudo funciona em torno do dinheiro. Que movimenta a vida acelerada da metrópole (que angustia em contraste com a 'vida besta' da província, segundo Drummon de Andrade)

 

As passagens das ruas lembram algo de Baudelaire, mas principalmente do estilo do “João do Rio” (uma amostra em http://www.almacarioca.com.br/jdorio01.htm ) onde as ruas têm nomes, sobrenomes, sentimentos, ambiências, misérias, dramas, alegrias. Assim o espaço é sempre relativizado, comparado (outro destaque são as lendas e utopias da Amazônia – que tanto influenciaram Mário de Andrade, em “Macunaíma”, e Antonio Callado, em “Quarup”, por exemplo)

 

Percebemos que João Ternura é realmente o 'nosso' Don Quixote, o 'nosso' Príncipe Michkin, é ele o fraco a se compadecer dos outros fracos, é o Viramundo, é o que prefere a solidão a tornar-se cúmplice da injustiça do mundo. (um contraponto é Nietzsche: não há 'bem' nem 'mal' – o mundo é assim mesmo: os fortes dominam, os fracos obedecem)

 

O amigo Manuel é franco e direto: “-Se você inventa de querer bancar o D. Quixote, vai ser um nunca acabar de surras. Tem muita gente apanhando na vida, Ternura. Em cada esquina há pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Os 'fortes são estúpidos em geral, e pisam nos fracos. E você não tem o tipo nem a bravura de D. Quixote para defender os fracos.” (p. 203)

 

continua...

 

 por Leonardo de Magalhaens



Escrito por leonardo de magalhaens às 14h53
[] [envie esta mensagem
] []





sobre JOÃO TERNURA - romance de Aníbal Machado (p1)

sobre “João Ternura” (1965)

romance de Aníbal Machado (1894-1964)

 

 

A apoteose trágica do Homem Cordial

 

Parte 1

 

A figura do Homem Cordial, lembrada e discutida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil” (1936), deriva de uma expressão do escritor Ribeiro Couto, também usada por Cassiano Ricardo, segundo informa o próprio Holanda, no sentido de uma 'glorificação' do 'pacato cidadão', de caráter brando e cheio de polidez. (1)

 

Sendo simpático e modesto, em suma, 'cordial', o brasileiro evita violências e despreza as guerras (2), aceita pacificamente as mudanças e respeita as autoridades. Como poderia ser diferente no país onde a questão do trabalho é 'caso de polícia' e as revoluções são feitas 'de-cima-para-baixo'?

 

No embate entre as forças tradicionalistas rurais feudais e os grupos urbanos quase-modernos, os cidadãos 'cordiais' procuram formar suas personalidades numa sociedade dita 'democrática' ocidental, porém mantendo laços de parentescos, saudades do paternalismo, medo de assumir o controle da própria vida, ânsia por produtos (e ideias) importadas. Deslocados, nunca adaptados, marginalizados, sempre excluídos, os 'cordiais' pagam o preço da sua 'cordialidade', ao acreditarem na 'cordialidade' dos 'homens importantes'. Uma ilusória 'polidez', toda falsa, a encobrir a famosa afronta: “Você sabe com quem você está falando?”(3)

 

O homem 'cordial' sofre para ser 'cordial' no país dos 'homens cordiais'. Assim é o aventurado e desventurado Quixote modernista provinciano brasileiro João Ternura, o carismático protagonista do romance (de mesmo nome) do mineiro (de Sabará) Aníbal Machado, que dedicou décadas e angústias a escrita da obra (que foi publicada postumamente), destilando fina ironia e espírito ímpar de observação.

 

Acompanhamos João Ternura praticamente desde o útero, o nascimento messiânico do herói, o conturbado e paradisíaco seio da família, a sexualidade em descoberta, os erros e acertos, o crescimento e constrangimento na vida da província, o desejo de conhecer outras terras. Tudo em blocos em fragmento, em suspiros, em desabafos, registrando em flashes a vida e as vicissitudes de João Ternura, tentando entender que 'mundo louco é este' em que veio cair. Uma ação que é elogiada hoje pode ser reprovada amanhã, um desejo incentivado ontem, pode ser sufocado hoje.

 

Ele deseja 'liberdade'. Então o que faz? Vai para a cidade grande! Que auto-engano! Nas multidões do Rio de Janeiro à beira-mar Ternura somente encontra solidão. Nem o 'parente na cidade' é grande ajuda. Conselhos e reprovações não faltam: Ternura precisa “ter presença” e “respeitar as autoridades”. Importante: “Fale devagar. E com firmeza, mesmo que não tenha nenhuma convicção.”

 

 

Conselhos que devem ajudar o pobre provinciano na dificuldade em adaptar-se a cidade de vida tumultuada recheada por uma multidão de anônimos, numa maré desassossegada do mar de faces. A ligação com a província e o passado? Sim, as lembranças, as saudades, e as cartas que a mãe ainda insiste em enviar, na espera de que o filho seja ajuizado, “Muito juízo, sim, meu amor?”, pois, mesmo à distância, a família educa e formata o indivíduo – não para mudar o mundo – mas para confortavelmente se encaixar, e 'ir levando a vida'.

 

Claramente, o primo urbano passa a evitar o primo provinciano, enquanto os 'homens importantes' estão por perto. Ternura a se perguntar: “Os filhos dos importantes são também importantes?” (p. 117) Quem são os 'importantes'? “São os donos de fábricas, de bancos. Eles nunca vão para a guerra, mas mandam a gente ir. São quase divinos...” (p. 118) A constante ânsia, a sexualidade vulgar da cidade, onde homens e (principalmente) as mulheres são 'objetos' de admiração e cobiça. O desejo é incentivado, aumentado, canalizado para o consumo, deixando o cidadão em permanente insatisfação. “Depois que eu cheguei, aumentou a minha fome de tudo. Acho que ainda não peguei o jeito de viver aqui.” (p. 119)

 

continua...

 

por Leonardo de Magalhaens

 

notas:

 

(1) ”Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o 'homem cordial'. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos patrões do convívio humano, informado no meio rural e patriarcal.” (pp. 146/47)

 

 

(2) ”Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo. (...) Tudo isso são feições bem características do nosso aparelhamento político, que se empenha em desarmar todas as expressões menos harmônicas de nossa sociedade, em negar toda espontaneidade nacional.” (p. 177)

 

(3) Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez.” e também “E, efetivamente, a polidez implica uma presença contínua e soberana do indivíduo” (p. 147)

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 14h50
[] [envie esta mensagem
] []





O QUE É ARTE? (ensaio) (2/2)

continuando...

O QUE É ARTE? (ensaio)

(2/2)

Até porque a Arte se alimenta disso: dualidades, ambiguidades,

contradições. O negativo e o positivo. O Belo e o Feio. O Harmonioso

e o Disforme. O Revolucionário e o Conservador. O Padrão e a

Novidade. Etc etc. A Arte pode ser usada para afirmar e para negar.

Sem dúvida. A quem serve a Arte? As classes dominantes ou as

classes que vão superar amanhã as dominantes de hoje? A Arte

é a Crença ou a Descrença num suposto Progresso da espécie

humana?

 

Depende, é ambígua. Encontramos artistas de ambos os lados.

Gente que é iconoclasta e gente que é pietista. Um abismo separa

os 'malditos' dos 'iluminados', digamos assim. Um abismo entre os

sombrios Byron, Sade, Goya, Poe, Baudelaire, Lautréamont, Álvares

de Azevedo, Nietzsche, e os proféticos, democratas ou revolucionários,

Blake, Goethe, Erasmo, Whitman, Maiakovski, Brecht, Ginsberg, etc.,

do mesmo modo que entre os românticos e futuristas, entre os

apolíneos e os dionisíacos.

 

O empurrar-se-para-a-frente que movimenta a sociedade moderna,

com sua produção e consumo, devastação e criação constante,

ao precisar gerar novidades para mover as compras, vem injetar

'toques artísticos' nas mais diversas mercadorias. Agregar símbolos

de sucesso e felicidade a mais simples marca de desodorante,

sabonete, creme para pele. Todo motorista quer se julgar um

Schumacher. O natural e o artificial se mesclam, o produto 'ecológico'

é pré-fabricado. Até fazer confundir artesanato com produtos em série.

A feira hippie vende plásticos e enlatados, chips e bugingangas

made in taiwan.

 

A dificuldade de julgar esteticamente a Arte: música eletrônica é arte?

Filme pornográfico é arte? Futebol é arte? Fotos panorâmicas de

cidadãos desnudos em praçs e avenidas é arte? Colagens aleatórias

de tiras de jornal e revistas são arte? Revistas em quadrinhos cheias

de monstros radioativos e heróis mutantes são arte? E o que dizer da

expressão 'a arte da guerra'? Os generais são, pasmem!, grandes

artistas dos campos de morte? As coreografias das batalhas geraram

quadros magníficos, não? Então Napoleón é assim útil a Arte, como

a surdez de Beethoven e a depressão de Van Gogh?

 

A necessidade da 'pedra no meio do caminho' para se gerar Arte?

O artista deve se sentir oprimido – fisica e politicamente para gerar

um desabafo que nós julgamos artístico? Guernica pode ser

bombardeada todo dia desde que tenhamos quadros magistrais de

Pablo Picasso? A violência policial e a indignidade das favelas deve

continuar para termos a arte hip-hop? Precisa haver a exploração

capitalista para gerar 'obras engajadas'?

 

É justamente 'ideológica' a questão da 'arte engajada', com conteúdo

ideológico, com denúncias sociais, divulgação política, seja de 'direita'

ou de 'esquerda', monarquista ou anarquista, liberal ou socialista.

Tanto que Sarte argumenta sobre a 'arte engajada' em seu polêmico

O que é Literatura?”, onde aborda a Escrita (mas não apenas a

Escrita) enquanto 'veículo de transformação social' devido as

denúncias que os escritores fazem sobre as realidades sociais,

despertando e mobilizando o povo para as 'revoluções'. Certo, mas

pode-se começar na filosofia e acabar no panfletário, no dogmático,

no 'realismo soviético'. Se o Partido paga, então o artista elogia.

Uma bela foto, ainda mais se encontramos um outdoor com a face

radiante do Grande Líder! Um bela paisagem, sim, mas ainda mais

bela se vislumbramos os tratores novos da 'fazenda modelo'!

 

No mundo socialista – não havendo exploração – não haveria 'arte

engajada'? Afinal, protestar contra o quê? Mas, a Arte não é

materialmente determinada, há algo mais. Uma espiritualidade,

uma religiosidade? Qualquer que seja o nome, sabemos, é limitado

para explicar essa ânsia humana por Algo mais, Algo sempre além,

que denominamos ser Transcendência, se formos platônicos o

suficiente, ou apenas Insatisfação (Freud) ou Carência (Sartre).

Quando a humanidade atingir o socialismo, outros problemas vão

surgir – ecológicos, por exemplo – e sempre haverá assunto para

os enredos e roteiros dos romances e filmes do futuro.

 

O fato de nunca estarmos contentes, sempre jogados na mobilidade,

produzindo para consumir, e consumindo para produzir mais, acabando

com os solos e poluindo os ares, tudo isso mostra que nem o socialismo

é a solução, não havendo qualquer 'sociedade perfeita' para um ser

tão cheio de náusea e mal-estar, tão auto-destrutivo quanto o ser

humano, que rompe limites criando outros limites, que soluciona

problemas gerando outros problemas, que estando aqui deseja

estar acolá, que estando lá, sente saudades daqui!

 

A Arte, percebemos, é todo desabafo que possibilita criar o inexistente,

ou simular o impossível, ou sugerir o condenado, ou doutrinar o ignorante,

ou prever o indizível. Enquanto houver insatisfação ou carência humanas

haverá artistas, e estes produzirão coisas, textos, imagens, que serão

denominadas arte ou não, estéticas ou não, engajadas ou não, mas

invariavelmente chocantes, imprevistas, sem rotulação, sem outro motivo

além de si-mesmas, sem qualquer lógica ou limite. Por que? Porque ser

a Arte humana, demasiadamente humana.

 

 

 

Agosto/09

 

 

Leonardo de Magalhaens

 

http://leonardomagalhaens.zip.net

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h18
[] [envie esta mensagem
] []





O QUE É ARTE? (ensaio)(1/2)

O QUE É ARTE?

 

(observação preliminar: prometo que, neste ensaio,

não farei citações)

 

 

Um dos conceitos mais difíceis e mutáveis é aquele que pretende

definir o que seja Arte, ou mais materialmente, o que seja

Objeto/Produto Artístico. A primeira dificuldade – a mais óbvia –

é justamente saber que conceituar Arte é uma forma de delimitar,

confinar, constranger (e por fim sufocar) o caráter trans-bordante

da Arte, uma 'ânsia de liberdade'. Talvez o conceito de Arte seja

volúvel justamente por isso: o que é liberdade hoje, pode ser prisão

amanhã.

 

Porém, sem um conceito de Arte, mil coisas, milhões de objetos,

podem ser considerados 'artísticos', e então, sendo 'tudo arte', nada

é realmente 'Arte'. E o Artista perde seu 'halo' (que vai cair mesmo

na lama , segundo Baudelaire) e perde todo o poder de quem enfrenta

os padrões e mesmices.

 

Definir Arte enquanto 'técnica' ou 'desejo de beleza' ou de 'harmonia'

seria fechá-la nestes cômodos compartimentos e esperar os juízos

dos 'entendidos' justamente em 'técnica', e 'beleza' e 'harmonia'.

Critérios que sabemos serem altamente mutáveis, sujeitos às

variações culturais e temporais. Por outro lado, a Arte enquanto

veículo de mensagens, ideologias, informes, filosofias, etc, seria

reduzir o 'aparato' artístico a uma de suas correntes, uma de suas

vocações, garantidas desde o Iluminismo, com as brochuras circulando

de mão em mão, difundindo ironias sobre a nobreza e o clero.

 

 

Uma exigência de inovação, mutação, em caráter constante, é um dos

itens do conceito de Arte. Ser antes de tudo uma forma de 'desafio',

contra o estabelecido, no desejo fremente de ser 'vanguarda'. Ser assim

ousado e diferente - para chamar a atenção (e, segundo alguns, gerar

publicidade, e vendas, e lucros) - movimentando as sensações e os

desejos dos Artistas e seus seguidores (as platéias, os fãs, os

colecionadores, os mecenas)

 

Uma exigência, então, de criatividade? O artista enquanto ser pleno

de ideias, inspirações, planos, projetos, elaborações, em constante

criar-atividade? Obrigado a desenvolver o 'novo'? O novo a partir de

fragmentos do atual e do superado? Uma arte enquanto exposições de

'frankensteins'? Seres-objetos-ideias expostos enquanto retoque e

superação? Espelho da época e pro-jeção do futuro?

 

A esquecer, porém, que as vanguardas geram sempre reacionários

(a direita sempre vence!), pois o que hoje é moderno, amanhã é

démodé, é ferro-velho, e os artistas de hoje serão os conservadores

da década seguinte (fazer Rock igual ao Led Zeppelin é coisa de

vovô! O lance agora é parafernália eletrônica...) justamente porque

surgem técnicas, de pintura, de impressão, de gravação, com

aparelhos novos, com tintas sintéticas, programas de fotos digitalizadas,

efeitos especiais, etc.

 

A Arte é , então, Beleza? É um conjunto estético de traços harmônicos,

equilíbrio de formas, idealização de contornos, retrato do existente, da

realidade sócio-econômica? Mas o que dizer então da pintura superada

pela fotografia, ou da ficção científica que está além-do-presente?

Como classificar as pinturas que brotam de sentimentos – sem formas

ou representações – mas apenas traços leves e/ou furiosos numa tela

usada para desabafos existenciais de artistas impulsivos e/ou depressivos?

 

 

Se a Arte é Beleza, então como classificar os delírios de Bosch, Goya

e Dalí? As figuras deformadas dos quadros de Francis Bacon (1909-92)

que chocaram até a Rainha inglesa? E as gravuras de monstros

alienígenas e formas disformes de H R Giger (1940-)? E os acordes

dissonantes da anti-música punk? E a des-sonoridade golpeante do

heavy metal? E batida eletrônica repetida e desmiolada do trance, do

techno, do funk carioca? Será que são arautos da Beleza? Ou não se

trata de arte, mas de uma Anti-Arte? O feio seria depreciativo? Inferior?

Seria "Arte Degenerada" como rotulavam os líderes nazistas?

Mas o feio também não geraria consumo? (O Circo dos Horrores é

sempre muito frequentado...)

 

Mas se o critério for 'quem consome', ou seja, se é consumível, então a

definição carece de estatísticas e panoramas mercadológicos. Quem

consome Arte? Poucos. Para se apreciar arte deve se estar além das

necessidades básicas da subsistência. Só um estudante, com mesada,

vai comprar um livro antes de garantir o jantar, ou o hamburguer. Uma

família que luta para almoçar e jantar todos os dias, raramente vai investir

em entradas para o teatro, acompanhar os concertos sinfônicos, ou

atualizar a biblioteca. Quem pode comprar livros? (Quem, aliás,

lê livros...?)

 

Podemos levantar um pesquisa de mercado sobre quem consome a

Beleza e quem consome o Horror. Podemos. Definir os perfis. Quem

lê Poe e quem lê Paulo Coelho. Quem ouve música clássica e quem

só ouve música punk. Quem adora quadros de Rembrandt e quem

adora quadros de Van Gogh. Quem idolatra peças de Shakespeare e

quem só consome Beckett. Tem gosto pra tudo nesse mundo!, vovó

já dizia. E não é verdade? Se o padrão for o consumo, o hino nacional

brasileiro devia ser em ritmo de funk de favela carioca ou modinha de

viola caipira, com colagens eletrônicas de axé-music.

continua...

 

Leonardo de Magalhaens

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h15
[] [envie esta mensagem
] []





obras de Pedro Nava - complentando o 7/7

 

Completando o 7/7...

 

 

Capítulo 3 – Campo de Santana

 

Descrição saudosista do Rio, aquele “que nem sequer existe mais”,

com as figuras de amigos de outrora, Murilo Mendes, famoso poeta,

além de Ismael Neri.

 

Descrição do quadro de saúde no RJ, com suas mazelas e avanços,

a missão dos médicos para aprimorar o atendimento, apesar do

descaso público.

 

É no serviço médico que melhor se identifica os 'brancos' e os 'marrons'.

E então o Autor dá livre vazão ao uso de 'alcunhas'. Em “Galo-das-Trevas

e “O Círio Perfeito”, Nava delicia-se com as 'alcunhas' aos desafetos e

aos 'médicos de marrom' (do jeito que Lima Barreto fazia...), desde as

descrições tragi-cômicas dos médicos da 'vidinha' do Desterro.

 

Alguns exemplos são: Cadaval, Panúrgio Cornelino, Simplício Minervino,

Acúrcio Chichorro (o falastrão), Sacanagildo Goiaba, Melício Carrão,

Couceiro Peralta, Agapito de Sódio (o gagá), Teodureto de Potássio,

todos senhores e doutores respeitabílissimos na sociedade, mas não

passam de crápulas, segundo o Autor.

 

A morte de Ismael Neri e a conversão de Murilo Mendes (poeta de

temática cristã) Os amigos: Afonso Arino, Benício de Abreu, Henrique

Dias, Alcides Estillac Leal, dentre outros. Em contra-ponto, os vultos

sombrios de Couceiro e Melício. O que mostra os dramas da vida de

médico, nas instituições da época (o que pouco mudou...)

 

Descrições da velha arquitetura do RJ, com toda uma 'geografia

sentimental', que mostra o quanto a cidade perdeu em 'estilo' e o

quanto está preservada na memória do Autor.

 

A narrativa insiste na divisão dos 'tipos' de médicos, contraponto os

dignos e os oportunistas. Outras 'alcunhas' surgem, desmoralizando

os 'médicos de marrom', nos (maus) exemplos de Serpentino Mattock,

Rosalvo Tranquilino, Alastrim Chichorro (que vive em intrigas), Josino

Rasposo (que pratica abortos), Alegrino Chuerba, Pupo Varejão

Bombaça, Variolandopiteco Tucundava, Preposto Concórdia, Cloacário

Barata (o delator), Pascácio Rouxinol (o neurótico perfeccionista),

Barnabés Ximenes, em suma, toda uma 'fauna' de salafrários que

não hesitaram em prejudicar a carreira do Egon (ou do Autor),

e que desmoralizam a 'missão médica'.

 

Mas também elogia os dignos Augusto Paulino, Mota Maia, Renato

Pacheco Filho, Aldahyr de Oliveira, e outros.

 

Maior relevância da figura do Comendador, algo obscuro, algo perverso.

Diálogos surreais e ambíguos, beirando o obsceno, que desconcertam

o leitor.

 

O livro finda em colóquios íntimos em tom soturno e simbolista, como a

querer dizer algo, mas sem ousar. Numa escrita arrastada, de dezembro

de 1980 a setembro de 1983, o texto deixa mais subentendidos do que

confissões, pouco abordando a sexualidade e a família. E muitos

esperavam uma continuação, muito prometida, mas o autor Pedro

Nava acabou por atentar contra a própria vida em maio de 1984,

em seu jardim no bairro da Glória.

 

Ensaios escritos em maio/09

 

 

Por Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 

 

´´´´´

 

 

sobre Nava leitor

um estudo

 

no link

http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/em%20tese-v.4-pdfs/Raquel%20Beatriz%20Junqueira%20Guimar%C3%A3es.pdf

 

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 19h12
[] [envie esta mensagem
] []





sobre obras de Pedro nava (7/7)

 

7/7

 

sobre a obra “O Círio Perfeito” (Memórias 6)

(4a ed., 1985)

de Pedro Nava

 

 

Uma despedida em ironia amarga

 

 

O Branco e o Marrom

 

Que livros valem sem escritor, exceto as Memórias?”

(André Maulraux)

 

A vida é um romance sem enredo” (José Egon)

 

A razão de ser do título. Os médicos dignos e os indignos da

profissão/missão da Medicina.

 

 

Capítulo 1 – Belorizonte Belo

 

A Revolução de 1930 e suas vítimas. A população entre o fogo

cruzado de legalistas federais e revolucionários estaduais.

 

Os casos e turbulências no mundo estudantil. A recém-fundada

UFMG e seu reitor Mendes Pimentel.

 

Todo um trecho do livro dedicado a memória saudosa de sua amada

Lenora, o “amor que a morte levou”, numa escrita ao estilo Edgar

A Poe, onde “a morte da Amada é o mais belo tema poético” Aqui

a narração em 3a pessoa assimila todo o tom confessional da

1a pessoa dos primeiros livros. Mostra o quão difícil é, isto de

manter um 'alter-ego'.

 

 

Capítulo 2 – Oeste Paulista

 

Viagem para o interior de São Paulo, como modo de se afastar de

BH, para esquecer a Amada morta. Egon então reencontra o amigo

Cavalcanti, médico digno e meritório. Lá também estão o Tavares

e o italiano Tartaglioni.

 

Nova clínica. O caso de intriga entre os 'médicos marrons', Chichorro,

Cornelino, Simplício. Casos de atendimento externo e de perícia

médica.

 

Os amigos: Constantino de Carvalho, Eliezer Magalhães, e outros.

O assassinato de Simplício.

 

A Revolução Constitucionalista de 1932 (ou contra-revolução,

como diziam os varguistas), quando o Autor (ou Egon) se vê

hostilizado pelos paulistas, pelo fato de ser mineiro/carioca. Assim,

a resolução de retornar ao RJ.

 

continua...

LdeM



Escrito por leonardo de magalhaens às 19h09
[] [envie esta mensagem
] []





continuando o 6/7...

 

continuando o 6/7

 

 

Capítulo II – Belorizonte Belo

 

 

Vida de médico em BH. A casa da Prima Diva. As sombrias

figuras de Cadaval e Argus (o “Bicho Cadavalargus”), e o caso

do matadouro. As enrolações no serviço público e as amizades

com os literatos 'futuristas'.

 

Lembranças da época de estudante, além de cenas na zona boêmia.

Tudo em contra-ponto com a vida de médico, que deve ser encarada

sempre como uma 'missão': o médico deve se superar a cada dia.

Mas há sempre os 'marrons', com seus nomes medonhos:

Aristônio Masculiflório Sobrino, Isaltino Zebrão, Pânfilo Temente (!)

 

A questão política: as crises econômicas em 1929 e o clima de

insatisfação política – que levará a Revolução no ano seguinte.

 

Uma aventura em Diamantina. Retratos do interior de Minas, sua

riqueza e sua pobreza.

 

Vésperas da Revolução de 1930. A oligarquia mineira resiste aos

planos paulistas. As tensões no serviço médico.

 

Finalmente, o 3 de outubro de 1930. Tropas estaduais trocam tiros

com tropas federais. E a população se encontra no meio do fogo

cerrado, sem nem entender o porquê. “A fúria das metralhadoras

 no céu de Minas Gerais

 

Frase que fecha o “Galo-das-Trevas” (escrito de junho/1978 a

outubro/1980) e abre o “O Círio Perfeito”, que aborda o período

das revoluções, a de 1930 e a paulista de 1932.

 

Por

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h58
[] [envie esta mensagem
] []





sobre obras de Pedro Nava (6/7)

6/7

 

sobre a obra “Galo-das-Trevas” (Memória 5)

(em 4a ed., 1987)

do escritor Pedro Nava

 

 

Amargura destilada na madrugada

 

 

Em “Galo-das-trevas” toda a amargura que o Autor gotejava,

ao longo dos livros anteriores, é aqui derramada. Sua visão

de mundo – dividido entre Bem e Mal – mostra o quanto as

memórias se prendem tanto a Virtudes e Saudades, quanto

Perdas e Ressentimentos.

 

O Autor começa a insistir em uma narração em 3a pessoa,

para isentar-se de confissões, deixando tudo por conta de seu

alter-ego Zegão. A narrativa assim distancia do tom memória-

lístico, em 1a pessoa, rememorando 'causos' do passado

longíquo. Agora, são as peripécias (até obscenas) de um certo

parente, José Egon, que parece ter feito tudo aquilo que o

Autor desejava. (Alguns leitores insistem que Zegão é o

próprio Nava.)

 

Vamos ao resumo comentado.

 

Primeira Parte – Negro

 

Capítulo único – Jardim da Glória à Beira-mar plantado

 

Longo trecho de entrelaçados comentários e reminiscências

sobre a saudade, a própria escrita, os altos e baixos da vida

(da missão) de médico. Tudo em destilado tom amargo,

amargurado, sombrio até. Descrição a la Baudelaire de locais

e de 'estados de ânimos' que resvalam o simbolismo prosaico.

 

Lembranças de amigos já falecidos. O que desperta as ideias

sobre a finitude, sobre a cultura (a erudição) como forma de

superar o declínio (físico, entenda-se) O alter-Ego Egon

(mero jogo de palavras?) é o primo-sombra, que faz tudo o

que Nava queria fazer (se não fez mesmo e agora

desconversa...)

 

O mundo dos bons e dos maus, ainda mais quando se trata

de médicos. Os 'médicos de branco', os corretos e humanistas,

e os 'médicos de marrom', os cínicos e oportunistas.

 

 

Segunda Parte – O Branco e o Marrom

 

 

Capítulo I – Santo Antônio do Desterro

 

Cenas em Belo Horizonte, nos círculos dos médicos em início

de carreira. As novas técnicas de cirurgia e de diagnóstico. A

dinâmica na Santa Casa (hospital referência em Minas Gerais).

Os doutores 'marrons' Aires de Cadaval e Argus Terra.

Obviamente nomes falsos, inventados por Nava, com alto grau

de ironia.

 

Descrições de cenas familiares: a casa da Prima Diva. O

tratamento em Caeté (a figura de Israel Pinheiro da Silva) A

 volta para BH. Mais tratamentos em Caetés e Brumadinho

(verdadeiras 'roças' naquela época)

 

Em Desterro: a anfitriã Sá-Menina. Os parentes (Paretos)

História de Desterro. O centro de saúde: a precariedade.

Os Amigos: Luís (Luisinho) Bracarense. O contra-ponto: os

cínicos da Sociedade de Medicina. Os 'marrons' e seus

'nomes' esdrúxulos: Sebastino Rufo Trancoso, Ooforato Histeriano,

 Audiovisto Munhoz, Chupitaz Esganadimo. Mas há também os

 amigos do pai de Egon (Dr. José Cesário Camareiro, Dr. Martinho)

 

Mais amigos; juventude: época boa de fazer amigos. Depois

vai se perdendo todos, um a um. Oscar Videla, Marimacho

Homem Campelo, Joel Martinho. Os parente, os Pareto: Ezequiel

e o Balbino. A figura do Primo Antonico. Mais cenas do Clube

de Desterro.

 

A Febre Amarela assola o interior. O médio médico e suas

precariedades. A morte do Dr. Trancoso. (A narrativa segue em

contra-pontos: ora a 'fauna' médica, ora a 'flora' de amigos) Os

amigos na zona boêmia X a vida de médico. Egon volta a BH

e reencontra Pedro Nava (ou seja, é aqui que Nava vai saber

o que Egon aprontou... )

 

continua...

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h57
[] [envie esta mensagem
] []





continuando o ensaio 5/7

 

Continuando o ensaio 5/7

 

 

Capítulo II – Rua da Bahia

 

Política e literatura. A Semana de Arte Moderna. As amizades

femininas: as irmãs Bevilacqua. O Centenário da Independência.

Viagem ao Rio de Janeiro. Encrencas na repartição (Higiene)

Doenças devido ao desgaste físico e mental. Exames

estressantes na Faculdade. Cenas boêmias (para relaxar)

Os estudantes de Medicina são 'os mais pândegos', os mais

boêmios.

 

Estudos médicos: a missão. As figuras de Odilon Behrens,

Juscelino Kubistchek, Flávio Marques Lisboa, Os Lisboas,

Carlos Pinheiro Chagas, Otávio Coelho de Magalhães.

Tolentino Miraglia, fundador da revista acadêmica RADIUM.

A paixão do Autor pela idealizada jovem 'Persombra'.

 

Fins de 1923. Mais exames na Faculdade. O apoio dos amigos:

Alberto Campos, Emílio Moura, João Alphonsus, Milton Campos,

Carlos Drummond. A chegada da 'caravana paulista', em 1924,

com as presenças ilustres e proféticas de Oswald e Mário de

Andrade, Tarsila do Amaral, e do francês Blaise Cendrars.

 

Faculdade de Medicina e as mil lembranças. “As memórias

precisam ser sinceras” (p. 198) Os médicos que merecem

admiração: Prof. Dr. Roberto de Almeida Cunha, Dr. Zoroastro

Viana Passos, Dr. Abílio de Castro, Dr. Marcelo Libânio.

 

 

Capítulo III – Avenida Mantiqueira

 

 

Revolta de 1924 em São Paulo. Os funerais de Raul Soares.

O Clube de Belo Horizonte. A Revista (do grupo modernista).

As figuras dos literatos: Abgar Renault, João Alphonsus

(autor de “Totônio Pacheco”), Austen Amaro.

 

A família: mudança para a rua Aimorés (em 1925) Paisagens e

andanças de BH. Mais amigos: Ascânio Lopes. O rigoroso

estudo da Medicina. A cirurgia, a patologia. Figuras médicas:

Dr. Henrique Marques Lisboa, Dr. Aurélio Pires.

 

Ruas de BH, andanças e descobertas. (Ir em Paris pra quê?)

Ruávamos quase o dia inteiro. Nossa vida era um ir e vir

constante nas ruas de Belo Horizonte.” Junto com as

personalidades de João Pinheiro da Silva Filho e Dario de

Almeida Magalhães.

 

Rotina na repartição (Higiene) A figura de Manuel Libânio.

Mais encrencas na repartição (o desvio de papel) A figura

de José Figueiredo Silva.

 

Carnaval de 1926. O Quinto Ano de Medicina.

 

 

Capítulo IV – Rua Niquelina

 

A figura do Dr. Borges da Costa. Clube Belo Horizonte. A

figura de José Baeta Viana. O Automóvel Clube. Casos

'escabrosos' do Zegão (se não do próprio Nava, como dizem

alguns...) Os anos 20 vão acabando... A enfermaria de mulheres.

A figura do Dr. Hugo Werneck. Os Andrada, os Melo Viana.

O amigo Fábio Andrada. A figura de Pedro Drummond de Sales

e Silva. A rotina na Santa Casa.

 

O Autor, ao mesclar suas vidas médica e literária, consegue

fazer amizades nas várias esferas das famílias tradicionais

de Belo Horizonte, e assim retratar como eram as famílias

mineiras que adotavam BH como 'lar', depois de deixarem

Ouro Preto. Impressiona aqui o ecletismo de descrições e

estilísticas, com a abordagem dos mais diversos assuntos,

 'ao correr da pena'.

 

Paixões de estudante. Erotismos de Zegão e Biluca. O Grupo

do 'Estrela'. As figuras de Gabriel Passos e Gustavo Capanema

Filho (o futuro ministro de Getúlio Vargas)

 

Desgostos na Faculdade. Desentendimentos com o Dr. Werneck.

A figura do Dr. Alfredo Balena. A criação da Universidade Federal

de Minas Gerais/UFMG, em agosto de 1927. “Os rapazes de BH

se destacam. A formatura. Visita a Juiz de Fora. O parente

Dr. Paletta.

 

Assim, o “Beira-Mar” acaba e sem qualquer narração da vida

de Nava no Rio de Janeiro. Local onde o Autor escreveu o livro,

de novembro de 1976 a abril de 1978, no Bairro da Glória, mesmo

bairro onde viria a falecer em maio de 1984.

 

Nos próximos ensaios/resumos abordaremos as obras finais,

mais amargas que irônicas, “Galo-das-trevas” e “O Círio Perfeito”.

 

 

Maio/09

 

 

Por Leonardo de Magalhaens



Escrito por leonardo de magalhaens às 17h53
[] [envie esta mensagem
] []





sobre Pedro Nava (Beira-Mar)(5/7)

5/7

 

sobre Beira-Mar (1979) Memórias 4

de Pedro Nava

 

 

Em Belo Horizonte à beira-mar de serras

 

 

Pode soar estranho, realmente, que as Memórias de

Pedro Nava, que exumam a BH de juventude, tenha

este título “Beira-Mar”. Mas, segundo o Autor, ele pretendia

abordar o tempo no Rio de Janeiro, e se alongou muito,

confessando mais do que 'devia' sobre a BH dos tempo idos.

Além do mais, era sugestão de um amigo, o arquiteto

Lúcio Costa, desde a publicação de “Chão de Ferro”.

 

Mas sendo BH uma cidade à sombra das montanhas,

à beira-mar de serras, o título serviu como um 'chamado

às avessas', como se um livro sobre o deserto do Saara

se chamasse 'águas claras'... Muitos se deixaram seduzir

por estas promessas de vida à beira-mar, para caírem de

súbito no asfalto cotidiano de BH.

 

Veremos, em resumo, do que trata as Memórias 4.

 

Capítulo I – Bar do Ponto

 

Situado no Ponto do Bonde (o elétrico assim chamado

devido a venda de 'bonds' pela companhia empreendedora,

o que batizou localmente o 'tram' ou 'trolley'), o famoso Bar

abrigava as figuras da vida boêmia de BH juvenil, na 'era

da inocência'. Isto logo após a Primeira Grande Guerra,

antes da Semana de Arte Moderna, época ainda infestada

por Parnasianos e outros vultos afetados. O Autor descreve

as paisagens urbanas, num tom 'flâneur' a la Baudelaire, e

um tom sombrio, amargo, de quem lembra o que se perdeu.

 

Os tipos humanos da capital mineira, a nova geração. A

rua da Bahia e o viaduto Santa Tereza. A Tradicional Família

Mineira, TFM. A visita do Major (que deixa o farto material

que será usado pelo Autor para compor as genealogias

descritas em “Baú de Ossos” e “Balão Cativo”)

 

Os amigos da Faculdade de Medicina, todos divididos entre

os estudos e a boêmia. Cavalcanti, Cisalpino, Isador, Chico.

Os exames pavorosos e os enigmas da Química.

 

O Autor retoma a narrativa do final de “Chão de Ferro”,

quando de seu ingresso na 'vida de funcionário público', e

seu projeto audacioso e pretencioso de escrever um

volumoso 'romance burocrático'. A figura do Dir. Prof.

Samuel Libânio.

 

Minha Mãe esperava na janela, correu, abriu a porta.

Então? meu filho... Começo a trabalhar amanhã às dez

pras onze. Já sou funcionário. E que tal o Doutor Samuel?

Formidável, formidável. Era realmente a opinião que eu

tinha formado. Um homem formidável. Habitualmente

desconfiado e extremamente susceptível eu tinha reparado,

tinha, no modo do Diretor de Higiene ter me recebido de

saída, chapéu na cabeça e de não ter me estendido a mão

para apertar. Diluí isto na mansidão dos seus olhos claros e

dei tudo à conta de sua distração de sábio. Porque o Doutor

Samuel era um sábio.”

 

A correria diária entre a Faculdade e a repartição na Praça

da Liberdade. As figuras do Sr. Mourão, do Dr. Abílio. Os

amigos Paulo Machado, Aníbal Machado, o Cavalcanti. As

'estudantadas' – a noite de BH nos anos 20. O famoso 'descer'

para a zona boêmia. As primeiras 'amizades literárias'.

Pedro Nava conhece o poeta Carlos Drummond de Andrade,

o amigo do Aníbal”.

 

Carnaval de 1922, a amada Leopoldina. Estudos médicos,

e o horror dos cadáveres. (Uma paródia de Frankenstein?)

O Dr. Lódi, o legista Joaquim Matos. Mais amigos (a roda

de amizades se amplia na juventude!) Afonso Arinos, Romeu

de Avelar, Abgar Renault, Emílio Moura, Cyro dos Anjos.

Os literatos 'futuristas'.

 

Segundo semestre na Faculdade. Os renomados Marques

Lisboa e Roberto Baeta Neves. Os projetos 'futuristas' do

pessoal do bar 'Estrela' (ali na rua da Bahia). As leituras e

amizades, as muitas influências.

 

 

Continua...

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 17h49
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]