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O QUE É ARTE? (ensaio) (2/2)

continuando...

O QUE É ARTE? (ensaio)

(2/2)

Até porque a Arte se alimenta disso: dualidades, ambiguidades,

contradições. O negativo e o positivo. O Belo e o Feio. O Harmonioso

e o Disforme. O Revolucionário e o Conservador. O Padrão e a

Novidade. Etc etc. A Arte pode ser usada para afirmar e para negar.

Sem dúvida. A quem serve a Arte? As classes dominantes ou as

classes que vão superar amanhã as dominantes de hoje? A Arte

é a Crença ou a Descrença num suposto Progresso da espécie

humana?

 

Depende, é ambígua. Encontramos artistas de ambos os lados.

Gente que é iconoclasta e gente que é pietista. Um abismo separa

os 'malditos' dos 'iluminados', digamos assim. Um abismo entre os

sombrios Byron, Sade, Goya, Poe, Baudelaire, Lautréamont, Álvares

de Azevedo, Nietzsche, e os proféticos, democratas ou revolucionários,

Blake, Goethe, Erasmo, Whitman, Maiakovski, Brecht, Ginsberg, etc.,

do mesmo modo que entre os românticos e futuristas, entre os

apolíneos e os dionisíacos.

 

O empurrar-se-para-a-frente que movimenta a sociedade moderna,

com sua produção e consumo, devastação e criação constante,

ao precisar gerar novidades para mover as compras, vem injetar

'toques artísticos' nas mais diversas mercadorias. Agregar símbolos

de sucesso e felicidade a mais simples marca de desodorante,

sabonete, creme para pele. Todo motorista quer se julgar um

Schumacher. O natural e o artificial se mesclam, o produto 'ecológico'

é pré-fabricado. Até fazer confundir artesanato com produtos em série.

A feira hippie vende plásticos e enlatados, chips e bugingangas

made in taiwan.

 

A dificuldade de julgar esteticamente a Arte: música eletrônica é arte?

Filme pornográfico é arte? Futebol é arte? Fotos panorâmicas de

cidadãos desnudos em praçs e avenidas é arte? Colagens aleatórias

de tiras de jornal e revistas são arte? Revistas em quadrinhos cheias

de monstros radioativos e heróis mutantes são arte? E o que dizer da

expressão 'a arte da guerra'? Os generais são, pasmem!, grandes

artistas dos campos de morte? As coreografias das batalhas geraram

quadros magníficos, não? Então Napoleón é assim útil a Arte, como

a surdez de Beethoven e a depressão de Van Gogh?

 

A necessidade da 'pedra no meio do caminho' para se gerar Arte?

O artista deve se sentir oprimido – fisica e politicamente para gerar

um desabafo que nós julgamos artístico? Guernica pode ser

bombardeada todo dia desde que tenhamos quadros magistrais de

Pablo Picasso? A violência policial e a indignidade das favelas deve

continuar para termos a arte hip-hop? Precisa haver a exploração

capitalista para gerar 'obras engajadas'?

 

É justamente 'ideológica' a questão da 'arte engajada', com conteúdo

ideológico, com denúncias sociais, divulgação política, seja de 'direita'

ou de 'esquerda', monarquista ou anarquista, liberal ou socialista.

Tanto que Sarte argumenta sobre a 'arte engajada' em seu polêmico

O que é Literatura?”, onde aborda a Escrita (mas não apenas a

Escrita) enquanto 'veículo de transformação social' devido as

denúncias que os escritores fazem sobre as realidades sociais,

despertando e mobilizando o povo para as 'revoluções'. Certo, mas

pode-se começar na filosofia e acabar no panfletário, no dogmático,

no 'realismo soviético'. Se o Partido paga, então o artista elogia.

Uma bela foto, ainda mais se encontramos um outdoor com a face

radiante do Grande Líder! Um bela paisagem, sim, mas ainda mais

bela se vislumbramos os tratores novos da 'fazenda modelo'!

 

No mundo socialista – não havendo exploração – não haveria 'arte

engajada'? Afinal, protestar contra o quê? Mas, a Arte não é

materialmente determinada, há algo mais. Uma espiritualidade,

uma religiosidade? Qualquer que seja o nome, sabemos, é limitado

para explicar essa ânsia humana por Algo mais, Algo sempre além,

que denominamos ser Transcendência, se formos platônicos o

suficiente, ou apenas Insatisfação (Freud) ou Carência (Sartre).

Quando a humanidade atingir o socialismo, outros problemas vão

surgir – ecológicos, por exemplo – e sempre haverá assunto para

os enredos e roteiros dos romances e filmes do futuro.

 

O fato de nunca estarmos contentes, sempre jogados na mobilidade,

produzindo para consumir, e consumindo para produzir mais, acabando

com os solos e poluindo os ares, tudo isso mostra que nem o socialismo

é a solução, não havendo qualquer 'sociedade perfeita' para um ser

tão cheio de náusea e mal-estar, tão auto-destrutivo quanto o ser

humano, que rompe limites criando outros limites, que soluciona

problemas gerando outros problemas, que estando aqui deseja

estar acolá, que estando lá, sente saudades daqui!

 

A Arte, percebemos, é todo desabafo que possibilita criar o inexistente,

ou simular o impossível, ou sugerir o condenado, ou doutrinar o ignorante,

ou prever o indizível. Enquanto houver insatisfação ou carência humanas

haverá artistas, e estes produzirão coisas, textos, imagens, que serão

denominadas arte ou não, estéticas ou não, engajadas ou não, mas

invariavelmente chocantes, imprevistas, sem rotulação, sem outro motivo

além de si-mesmas, sem qualquer lógica ou limite. Por que? Porque ser

a Arte humana, demasiadamente humana.

 

 

 

Agosto/09

 

 

Leonardo de Magalhaens

 

http://leonardomagalhaens.zip.net

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h18
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O QUE É ARTE? (ensaio)(1/2)

O QUE É ARTE?

 

(observação preliminar: prometo que, neste ensaio,

não farei citações)

 

 

Um dos conceitos mais difíceis e mutáveis é aquele que pretende

definir o que seja Arte, ou mais materialmente, o que seja

Objeto/Produto Artístico. A primeira dificuldade – a mais óbvia –

é justamente saber que conceituar Arte é uma forma de delimitar,

confinar, constranger (e por fim sufocar) o caráter trans-bordante

da Arte, uma 'ânsia de liberdade'. Talvez o conceito de Arte seja

volúvel justamente por isso: o que é liberdade hoje, pode ser prisão

amanhã.

 

Porém, sem um conceito de Arte, mil coisas, milhões de objetos,

podem ser considerados 'artísticos', e então, sendo 'tudo arte', nada

é realmente 'Arte'. E o Artista perde seu 'halo' (que vai cair mesmo

na lama , segundo Baudelaire) e perde todo o poder de quem enfrenta

os padrões e mesmices.

 

Definir Arte enquanto 'técnica' ou 'desejo de beleza' ou de 'harmonia'

seria fechá-la nestes cômodos compartimentos e esperar os juízos

dos 'entendidos' justamente em 'técnica', e 'beleza' e 'harmonia'.

Critérios que sabemos serem altamente mutáveis, sujeitos às

variações culturais e temporais. Por outro lado, a Arte enquanto

veículo de mensagens, ideologias, informes, filosofias, etc, seria

reduzir o 'aparato' artístico a uma de suas correntes, uma de suas

vocações, garantidas desde o Iluminismo, com as brochuras circulando

de mão em mão, difundindo ironias sobre a nobreza e o clero.

 

 

Uma exigência de inovação, mutação, em caráter constante, é um dos

itens do conceito de Arte. Ser antes de tudo uma forma de 'desafio',

contra o estabelecido, no desejo fremente de ser 'vanguarda'. Ser assim

ousado e diferente - para chamar a atenção (e, segundo alguns, gerar

publicidade, e vendas, e lucros) - movimentando as sensações e os

desejos dos Artistas e seus seguidores (as platéias, os fãs, os

colecionadores, os mecenas)

 

Uma exigência, então, de criatividade? O artista enquanto ser pleno

de ideias, inspirações, planos, projetos, elaborações, em constante

criar-atividade? Obrigado a desenvolver o 'novo'? O novo a partir de

fragmentos do atual e do superado? Uma arte enquanto exposições de

'frankensteins'? Seres-objetos-ideias expostos enquanto retoque e

superação? Espelho da época e pro-jeção do futuro?

 

A esquecer, porém, que as vanguardas geram sempre reacionários

(a direita sempre vence!), pois o que hoje é moderno, amanhã é

démodé, é ferro-velho, e os artistas de hoje serão os conservadores

da década seguinte (fazer Rock igual ao Led Zeppelin é coisa de

vovô! O lance agora é parafernália eletrônica...) justamente porque

surgem técnicas, de pintura, de impressão, de gravação, com

aparelhos novos, com tintas sintéticas, programas de fotos digitalizadas,

efeitos especiais, etc.

 

A Arte é , então, Beleza? É um conjunto estético de traços harmônicos,

equilíbrio de formas, idealização de contornos, retrato do existente, da

realidade sócio-econômica? Mas o que dizer então da pintura superada

pela fotografia, ou da ficção científica que está além-do-presente?

Como classificar as pinturas que brotam de sentimentos – sem formas

ou representações – mas apenas traços leves e/ou furiosos numa tela

usada para desabafos existenciais de artistas impulsivos e/ou depressivos?

 

 

Se a Arte é Beleza, então como classificar os delírios de Bosch, Goya

e Dalí? As figuras deformadas dos quadros de Francis Bacon (1909-92)

que chocaram até a Rainha inglesa? E as gravuras de monstros

alienígenas e formas disformes de H R Giger (1940-)? E os acordes

dissonantes da anti-música punk? E a des-sonoridade golpeante do

heavy metal? E batida eletrônica repetida e desmiolada do trance, do

techno, do funk carioca? Será que são arautos da Beleza? Ou não se

trata de arte, mas de uma Anti-Arte? O feio seria depreciativo? Inferior?

Seria "Arte Degenerada" como rotulavam os líderes nazistas?

Mas o feio também não geraria consumo? (O Circo dos Horrores é

sempre muito frequentado...)

 

Mas se o critério for 'quem consome', ou seja, se é consumível, então a

definição carece de estatísticas e panoramas mercadológicos. Quem

consome Arte? Poucos. Para se apreciar arte deve se estar além das

necessidades básicas da subsistência. Só um estudante, com mesada,

vai comprar um livro antes de garantir o jantar, ou o hamburguer. Uma

família que luta para almoçar e jantar todos os dias, raramente vai investir

em entradas para o teatro, acompanhar os concertos sinfônicos, ou

atualizar a biblioteca. Quem pode comprar livros? (Quem, aliás,

lê livros...?)

 

Podemos levantar um pesquisa de mercado sobre quem consome a

Beleza e quem consome o Horror. Podemos. Definir os perfis. Quem

lê Poe e quem lê Paulo Coelho. Quem ouve música clássica e quem

só ouve música punk. Quem adora quadros de Rembrandt e quem

adora quadros de Van Gogh. Quem idolatra peças de Shakespeare e

quem só consome Beckett. Tem gosto pra tudo nesse mundo!, vovó

já dizia. E não é verdade? Se o padrão for o consumo, o hino nacional

brasileiro devia ser em ritmo de funk de favela carioca ou modinha de

viola caipira, com colagens eletrônicas de axé-music.

continua...

 

Leonardo de Magalhaens

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h15
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