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LEOliteratura
 


Continuação da p1 - Os Outros

sobre O Amanuense Belmiro (de Cyro dos Anjos)

 

 

Os Outros

 

As personas, as personagens, os Outros, são igualmente

importantes para situarem (e criarem) o Eu por contraste

(Eu que não sou o Outro), pois Belmiro sabe que é indeciso e

sem convicções, apenas quando se compara com o metafísico

Silviano e com o revolucionário Redelvim. Aliás, são as opções

políticas (lembramos que os anos 20 e 30 foram de radicalização

política-ideológica que levou a eclosão da Segunda Grande

Guerra, 1939-1945), “Passaram ao terreno da política. Desde

muito, as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo

que ela não tardará a dissolver-se, pois há forças de repulsão,

mais que afinidades, entre estes inquietos companheiros.

Enquanto o Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo,

Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e o Florêncio

ficamos calados, à margem.” (p.53)

 

Metafísico, nietzschiano, obcecado com o 'mito faústico', mito-

maníaco, Silviano é um desafio para Belmiro (assim como Sancho

Pança tenta entender Don Quixote, Watson tenta entender Sherlock,

assim como Emilio tenta compreender Stefano, em Senilidade,

de I. Svevo, ou Serenus se intriga com Adrien, em Doktor Faustus,

de T. Mann ), uma incógnita que o protagonista nunca soluciona.

Assim o olhar de Belmiro desce aos demais, mais 'simples', como

é o caso de Glicério, o arrivista, sem a erudição de Silviano ou o

fervor de Redelvim, mas preocupado em 'frequentar as rodas

sociais', e acaba abandonando a literatura em prol de uma carreira

burguesa.

 

Assim, a identidade de Belmiro é dada pelos outros: para Redelvim,

Belmiro é céptico, pequeno burguês; para Silviano é um

'sentimentalóide plebeu'. Mas todos se enganam, pois Belmiro é

mais um 'sem-rumos', igual a um Don Quixote, um João Ternura

(do romance homônimo de Aníbal Machado), não um agente

de uma ou outra ideologia. Como é caso dos amigos, sempre

buscando um 'front' onde se situar. Até a Literatura tem uma

face ideológica, como pode se ver na posição dos poetas, a ser

revista na República Socialista, por Redelvim: “Os poetas (são)

'traficantes de tóxicos', sustentados pelo capitalismo para

entorpecer o espírito de rebeldia das massas...” (p. 89)

 

O que Belmiro não aceita é um mundo fechado em 'definições',

como desejam as ideologias (p.ex. 'quem não é de esquerda é de

direita', e vice-versa), “Por que hão de classificar os homens em

categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é pretender

prendê-los a um sistema rígido. Socialismo, individualismo, isso

aquilo. // As ideias de um homem podem não comportar-se dentro

dessas divisões arbitrárias. (...) O que é injusto é quererem

extorquir de nós uma definição, quando nós a procuramos,

em vão, sem a encontrarmos.” (p. 112)

 

 

continua...

 

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 10h02
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o Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos (p1)

sobre O Amanuense Belmiro (1937)

romance de Cyro dos Anjos (MG, 1906-RJ, 1994)

 

O Eu no Olhar dos Outros

 

Parte 1

 

A narrativa enquanto testemunho, enquanto fala de si-mesmo,

pode ser aquela do confessional, do drama íntimo, ou aquela do

drama externo que reflete (ou nele é projetado) uma angústia

interna. Em ambos o Narrador procura descrever-se, seja nas

próprias palavras (e conceitos), seja na s perspectivas dos outros

(os opositores, coadjuvantes, etc)

 

As formas de 'diário' ou 'memórias' são as mais comuns, quando

há um tom confessional, sendo o primeiro, mais 'presentificado'

(usa mais o tempo presente), enquanto o segundo usa mais

construções no pretérito (um passado relembrado/recuperado),

variando assim a distância entre um eu-de-hoje e eu-de-ontem.

 

Pode-se narrar sobre si-mesmo, falando de si-mesmo, mas

igualmente ao narrar a vida dos outros. A voz narrativa sendo

memoralista, numa 'paródia' de 'diários'. Assim é o romance

O Amanuense Belmiro”, do mineiro Cyro dos Anjos, que mistura

diário e memórias, ao retratar a vida na jovem Belo Horizonte

dos anos 20 e 30, ao mesmo tempo que relembra (e compara)

com a vida rural (a representar os belorizontinos de origem

provinciana) O que mostra uma certa influência de Machado

de Assis, de “Memorial de Aires”, ao situar-se entre dois ícones

da 'memoralística': Marcel Proust e Pedro Nava.

 

Assim como percebido nas obras de Proust e Nava, há toda

uma 'miscelânea' de discursos literários e (quase) ficcionais,

sendo um quase-romance que é uma quase-diário, que é

quase-memórias... Toda aquela sensação (e angústia) de fuga

do tempo, toda uma vontade de agarrar a existência nas foto-

narrativas da memória, do re-contar para re-vivenciar. O eu-

de-hoje desesperado para re-encontrar com o eu-de-ontem,

ou resgatar uma identidade que se perde dia a dia. Há um

narrador ('Belmiro sofisticado') que escreve e confessa sobre

um protagonista (ele-mesmo-de-outrora) ('Belmiro patético')

que viveu, sentiu, fantasiou num tempo já passado – e perdido.

 

Outra obra na tessitura de referências (e lembranças) é “A

Náusea”, diário existencialista publicado por Jean-Paul Sartre,

e assinado por Antoine Roquetin, principalmente no trecho abaixo,

onde Belmiro desabafa lamentações:

 

Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer

neste mundo? Até agora nada realizei. E, para diante, são

menores as possibilidades de qualquer realização. Serei,

mesmo, apenas o tal arbusto da chapada?”(p. 220), numa

referência ao 'caniço pensante' de Pascal? (“O homem não passa

de um caniço, o mais fraco d natureza, mas é um caniço pensante”,

L'homme n'est qu'un roseau, le plus faible de la nature, mais

c'est un roseau pensant. Pensées /Pensamentos)

 

Retrata a fragilidade física e mental do homem, quando o saber

traz infelicidade. De repente, é melhor ser mesmo ignorante e

'curtir a vida': “ignorância é meia felicidade” (p. 222)

 

Considerando-se o período da narrativa – do natal de 1934,

passando pelo carnaval de 1935, a intentona comunista, até o

início de 1936, num momento de transição – a capital sai da

província e se instalavanuma das primeiras cidades planejadas

do Brasil, e o êxodo ruralcuidava em encher a cidade planificada

para um 'número ideal'de habitantes. Há todo um saudosismo

do tempo do campo (em Vila Caraíba) : evidenciando o ser urbano

versus o ser rústico, rural, campestre. O urbano poluído de

pensares em constraste com o rural cheio de energias.

 

Os Outros

 

As personas, as personagens, os Outros, são igualmente

importantes para situarem (e criarem) o Eu por contraste

(Eu que não sou o Outro), pois Belmiro sabe que é indeciso e

sem convicções, apenas quando se compara com o metafísico

Silviano e com o revolucionário Redelvim. Aliás, são as opções

políticas (lembramos que os anos 20 e 30 foram de radicalização

política-ideológica que levou a eclosão da Segunda Grande

Guerra, 1939-1945), “Passaram ao terreno da política. Desde

muito, as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo

que ela não tardará a dissolver-se, pois há forças de repulsão,

mais que afinidades, entre estes inquietos companheiros.

Enquanto o Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo,

Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e o Florêncio

ficamos calados, à margem.” (p.53)

 

Metafísico, nietzschiano, obcecado com o 'mito faústico', mito-

maníaco, Silviano é um desafio para Belmiro (assim como Sancho

Pança tenta entender Don Quixote, Watson tenta entender Sherlock,

assim como Emilio tenta compreender Stefano, em Senilidade,

de I. Svevo, ou Serenus se intriga com Adrien, em Doktor Faustus,

de T. Mann ), uma incógnita que o protagonista nunca soluciona.

Assim o olhar de Belmiro desce aos demais, mais 'simples', como

é o caso de Glicério, o arrivista, sem a erudição de Silviano ou o

fervor de Redelvim, mas preocupado em 'frequentar as rodas

sociais', e acaba abandonando a literatura em prol de uma carreira

burguesa.

 

continua...

Leonardo de Magalhens



Escrito por leonardo de magalhaens às 09h56
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