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LEOliteratura
 


sobre O Amanuense Belmiro (p2)

sobre O Amanuense Belmiro (1937)

romance de Cyro dos Anjos (MG, 1906-RJ, 1994)

 

O Eu no Olhar dos Outros

 

Parte 2

 

Belmiro quer escrever 'memórias' mas acaba por escrever

'romance' (p. 95), onde as lembranças são transmutadas

em 'ficções', e os Outros são, de fato, projeções do Eu, e que

fogem ao controle: “Estive refletindo, esta tarde, em que, no

romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem.

A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si,

procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito.” e “Não se trata,

aqui, de romance. É um livro sentimental, de memórias. Tal

circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade,

dentro do nosso espírito as recordações se transformam em

romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno,

são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a

desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos,

tornando-se, enfim, romance, cada vez mais romance. Romance

trágico, romance cômico, romance disparatado, conforme cada

um de nós, monstros imaginativos, é trágico, cômico ou absurdo.”

 

Em contraste com o romance (que é idealização, ficção), o diário

não é romance, é um painel da vida complicada. As notas de

pensamentos soltos e existencialistas, de um 'burocrata lírico' é

que acabam por salvar Belmiro, quando da eclosão da Intentona

Comunista, em fins de 1935. O delegado ao ler as notas (o romance

em-si) só encontra um 'cidadão inofensivo'. E realmente, Belmiro

mesmo se compara a Don Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”,

na tentativa de “dar sentido a uma vida sem sentido”, a perseguir

uma Donzela Arabela, além de moinhos de vento.

 

Qual a solução? No terceiro parágrafo da obra está a fala de Silviano:

A solução é a conduta católica”, ou seja, não podendo ter tudo,

renuncia-se a tudo. Refugia-se num mosteiro. É a mesma solução

encontrada pelo narrador-protagonista (que também escreve um

'diário') de “O Braço Direito”, de Otto Lara Resende, e pelo Eduardo

de “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. “A conduta católica,

repetiu. Isto é, fugir da vida no que ela tem de excitante.” Caso

contrário, viver a vida é fazer 'concessão à Besta'. (Na metáfora,

entenda-se 'aos prazeres da carne')

 

Todo um dilema existencial que torna-se ironia e sarcasmo em

Hilda Furacão”, romance do também mineiro Roberto Drummond,

onde o padreco vê-se seduzido pela 'figura pecaminosa' da jovem

prostituta, que 'devora' os homens na zona boêmia.

 

Ao contrário de muitos outros, convertidos ou des-convertidos, para

Cyro dos Anjos, o Belmiro, a literatura é uma 'tábua de salvação',

Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico

(p. 198), o que está no contra-ponto de um Carlos Drummond de

Andrade, a escrever; “A literatura estragou tuas melhores horas de

amor”, onde a Escrita surge como um obstáculo a realização pessoal,

tolhendo energias vitais do Autor, mera sombra de um Texto.

 

 

É este o fenômeno do observar-se: uma segmentação do Eu: o eu-

de-agora, na plateia, vê o eu-de-ontem lá no palco. A Escrita surge

como a descrição de si-mesmo, em comparação (e atrito e conflito)

com os Outros. Estes incentivam (e desafiam) a um olhar no espelho

(do tipo: “serei o que eles pensam que eu sou”?)

 

Já não encontro, no ato de escrever, a satisfação de outros tempos.

Pouco há, também, que escrever. Continuar a acompanhar a vida

dos outros? Isso seria interminável. A vida dos amigos apenas se

me revelou quando incidiu na minha. Jamais entrei nos seus domínios

íntimo, e se mergulhei a fundo em Silviano, foi porque nele encontrei

possíveis itinerários para as minhas incertezas. Só conhecemos,

aliás, a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o

mais é conjetura ou romance. Não tenciono escrever romance.”

(pp. 209/210)

 

Nem a vida, nem a Escrita parece ser favoráveis ao desiludido Belmiro,

sem amigos sem a donzela idealizada, “Já não é donzela, nem Arabela.”

(p. 226) Sua razão de existência (será a construção do Eu? A

preocupação com os Outros? A conquista de uma companheira? Uma

carreira de ascensão social?) é sempre problematizada e deixada em

suspenso (em 'sursis' existencial), uma vez que Belmiro não aceita as

rotulações e definições externas, os meandros do circo social que ele

ironiza com amargura. Sem os amigos, preocupados com seus êxitos

e fracassos pessoais, sobra a companhia do humilde Carolino, serviçal

na repartição. “Que faremos, Carolino amigo?”

 

O narrador Belmiro (ou o autor Cyro dos Anjos) não resolve

plenamente nenhuma das questões levantadas (afinal, responder

seria decidir-se por um dos lados, e perder-se-ía o tom 'dialogístico')

e deixa o leitor dentro do redemoinho de perspectivas, nenhuma

delas totalizando, nenhuma delas servindo de 'guia'. Resta apenas

o homem que hesita, o Hamlet dentro de cada pensador.

 

 

nov/09

 

 

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 09h53
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