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LEOliteratura
 


Precisamos Defender a Literatura

Precisamos defender a Literatura

dos interesses da Direita, da Esquerda, do Centro

e principalmente dos Acadêmicos

 

 

O que seja Literatura, e como a definimos nós que escrevemos, é uma questão sobre a qual nos debruçamos ao longo de quase uma década, quando a Escrita assume a importância de uma diálogo nem sempre viável na vida real (digo, social). Então Escrever surge como a melhor forma de 'dialogar', de se expressar. Ainda mais visto a infinitude de palavras que jogamos fora, inutilmente, em conversações diárias.

 

A Escrita enquanto 'fixação' da Fala e expressão do Autor, não importando as 'fronteiras' entre um e outro (mero formalismo acadêmico), permite a sobrevivência de Enunciações até alcançar as novas gerações, onde os textos estão sujeitos a novas interpretações, adaptações, deturpações e instrumentalizações. Sendo uma permanente fonte de consulta (e de comentários) a Literatura vê-se atingida por todos os lados por apropriações a servirem aos interesses de grupos políticos e econômicos, que visam a utilização do conteúdo humano e emocional da Escrita.

 

Seria uma utilização 'extra-artística' no sentido de além-da-Arte, fora da Arte, estando esta subordinada a um interesse não-literário, servindo como transmissor de ideias e não exatamente estética. Enquanto a proclamação de “Arte pela Arte” defende o discurso estético em si-mesmo, sem referenciais, sem ligações políticas e ideológicas. Mas o “Arte pela Arte” já é (e não sejamos ingênuos!) uma posição política e ideológica diante da Escrita.

 

Assim, temos duas polaridades. O pólo do texto pelo texto, e o pólo do texto a favor de algo fora do texto. A Literatura dizendo sobre si-mesma ou pretendendo se manifestar (e agir) fora do âmbito literário. E cada grupo social, econômico, ideológico vem se esforçando por direcionar (ou dizer que a Literatura assim se direciona...) para um dos pólos. Obscurecendo (ou querendo ignorar) o fato de que a Escrita é diálogo (do Autor consigo mesmo, do Autor para o Leitor, dos Leitores uns com os outros...) intermediando os dois (ou vários...) pólos.

 

Precisamos, portanto, defender a Literatura dos interesses da Direita, que pretende limitar, moralizar, censurar os âmbitos literários, no propósito de reproduzir o status quo, a conservar a desigualdade, a garantir os privilégios para as Elites. Defender dos interesses da Esquerda, que visa instrumentalizar, tornar a Escrita um veículo panfletário de luta, muitas vezes destruindo a estética. Defender dos interesses do Centro, que deseja anestesiar as obras literárias, congelar qualquer debate, postergar qualquer crítica.

 

E principalmente defender a Literatura dos interesses dos Acadêmicos, que se esforçam em normatizar, rotular, compartimentar, ensimesmar a Escrita, ao fazer a Literatura voltar-se sobre si-mesma, ser 'metalinguagem', conjunto de paradigmas e estruturas, ou então mera ficção sem referenciais. Onde Enredo são ficções auto-referenciais, onde as personagens são 'funções textuais' (assim como para a Sociologia somos “atores sociais” !!)

 

Podemos ouvir, em plena aula de Teoria da Literatura, na FALE-UFMG, a barbaridade, dita por acadêmicos, nossos professores, que a Literatura nada diz além de si-mesma, que tem uma função estética apenas – ou seja, exprime toda aquela visão formalista, estruturalista, anti-historicista, que é contra-ponto à visão marxista (do materialismo-dialético, onde a infra-estrutura material determina a super-estrutura cultural-simbólica-discursiva) onde a Literatura é mero produto de formas sociais, numa dada época histórica, e assim todo texto é limitado, datado e de teor coletivo (onde ficaria o Autor e o Estilo? Também o Autor é determinado pelo meio social...)

 

Neste ponto o marxismo está equivocado (principalmente autores como Lukács e Gramsci), assim como o formalismo (Bakhtin e Todorov) e o estruturalismo (principalmente Derrida e Kristeva), com poucas exceções, talvez Foucault e Deleuze, que falam de Texto-Contexto, Obra-Estilo, Discurso-História. Assim, um absurdo gera em contra-ponto um outro absurdo (assim como a humanidade nunca sabe resolver um problema sem criar outros...) Cada um quer defender um ponto-de-vista, e esquece que não há uma perspectiva ideal para se ver o mundo. Tudo são ângulos, parciais e subjetivos, de observação.

 

E é justamente esse pluralismo (nem sempre 'politicamente correto') que é preciso preservar na Literatura. Caso contrário, cada pólo vai querer censurar o outro: e para onde vai a 'liberdade de expressão'? (Com um porém, para os 'liberais', liberdade não mais é que liberdade para lucrar – e não repensam as consequências desse 'livre negócio' que gera concentração e pobreza...) A Literatura não serve a apenas um dos 'pólos' mas a todos. A beleza de obras como “Ulisses”(James Joyce) ou “Crônica da Casa Assassinada”(Lúcio Cardoso) está basicamente no uso plural do discurso, a multiplicidade de visões, a partir do olhar de várias personagens.

 

 

Na Literatura Brasileira, para sermos específicos (e bons nacionalistas) temos ótimos autores que falam da Literatura na Literatura, mas igualmente ótimos escritores nos quais a Literatura se refere e discute o mundo extra-literário, com ou sem 'engajamento', mas em busca de diálogo, denúncia e testemunho. (Melhor redação: diálogo plural, denúncia social e testemunho existencial) A necessidade de 'espelhar' o mundo é sempre 'filtrada' pela necessidade de expressão. Há um Autor, há um Narrador, há um Estilo. (Dizemos um Estilo, mas o Estilo pode incluir uma multiplicidade de características, na mesma obra, e de obra para obra...)

 

Temos um Machado de Assis que preenche suas narrativas (de pouco conteúdo) com longas digressões, comentários metafísicos, nuances irônicas, como encontramos em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas temos igualmente um Graciliano Ramos que fala do mundo extra-literário, absorvendo-o ao literário (como são clássicos os exemplos de “São Bernardo”, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”. Temos autores altamente estéticos, e não podemos deixar de destacar Guimarães Rosa, em “Sagarana” e “Grande Sertão:Veredas”, a mostrarem todo um interesse sobre o 'mundo extra-literário', onde as personagens não são meras 'funções textuais', mas representações de gente de carne e osso, que sofre sob a opressão e geme de angústia.

 

Temos autores altamente estéticos e psicológicos (lembramos Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado ) onde o texto tem um propósito, não sendo mera ficção de 'exercício textual', ou 'metalinguagem', mas uma forma de expressar um desconforto e comunicar este desassossego aos leitores dedicados (pois a Leitura exige dedicação, não apenas disposição para lazer e entretenimento), bem diferente de autores (ditos pós-modernos) que nada dizem além do texto, em um palavrório auto-referente, vazio de discurso, sem algo de importante a dizer, nada além de encher páginas e mais páginas de papel, com caracteres tipográficos inúteis.

 

A Literatura enquanto auto-referente é uma porca mastigando o próprio rabo, rodando em círculos, matando os leitores de tédio (que na ausência de um real Enredo ficcional, vão preferir ler os best-sellers do mês, que entregam mastigadas as fábulas e fantasias da temporada...) Dizer do dia-a-dia, dizer sobre o que é viver em um mundo desigual, não é desviar-se da Literatura, mas mostrar que a Escrita pode testemunhar o mundo ao redor, possibilitando ao Autor desabafar sobre seus sonhos e pesadelos.

 

Set/09

 

Leonardo de Magalhaens

 

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

 



Escrito por leonardo de magalhaens às 14h13
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